A empatia virou item de avaliação de desempenho. E então perdeu os dentes.
Tem um padrão que se repete toda vez que o mundo corporativo descobre uma palavra nova.
Aconteceu com resiliência. Com propósito. Com pertencimento. E aconteceu — com mais velocidade e mais dano — com empatia.
Nos anos 2010, o mercado “descobriu” que líderes precisavam sentir pelo outro. Virou competência de liderança. Virou módulo de treinamento. Virou item de avaliação de desempenho numerado de 1 a 5.
Nota 3 em empatia. Abaixo da média. Precisa desenvolver.
O problema não é que as empresas tentaram cultivar empatia. O problema é o que acontece com qualquer coisa quando você a transforma em métrica: ela deixa de ser real e passa a ser performada. As pessoas aprendem a parecer empáticas nos momentos certos, não a ser empáticas o tempo todo.
O que DFW chamava de configuração padrão entra aqui
Em 2005, David Foster Wallace disse numa palestra que nossa programação de fábrica é o egocentrismo. Não o egocentrismo de achar que você é melhor — o egocentrismo de fábrica: você é o protagonista, todos os outros são coadjuvantes.
Isso não é falha moral. É firmware.
A empatia — de verdade — seria o antídoto para esse firmware. Mas quando você a transforma em treinamento obrigatório, ela deixa de ser escolha e vira protocolo. E protocolo ninguém internaliza.
O curioso é que dez anos depois da empatia virar treinamento corporativo, apareceu uma nova palavra para nomear o que faltava: sonder. A epifania de que as outras pessoas também existem de verdade.
O mercado ainda não ouviu falar de sonder. Mas é só uma questão de tempo.
Quando ouvir, já sabe o que vai acontecer: vira módulo. Vira competência. Vira item de avaliação de desempenho.
Existe alguma coisa que o treinamento corporativo não consiga esvaziar? Ou é inevitável que qualquer palavra que nomeia o humano acabe virando produto?
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